Sr. Valentim,
“(…) Em empresas muito centralizadas e com uma divisão de tarefas profundamente marcada, a organização do trabalho faz com que o individuo perca a sua individualidade, passando a ser apenas uma peça dispensável de um máquina. Podemos formular o problema humano do capitalismo da seguinte forma:
O capitalismo moderno precisa de uma grande quantidade de homens que colaborem sem levantar problemas, que queiram consumir cada vez mais, e cujos gostos estejam nivelados e sejam altamente influenciáveis e previsíveis. Precisa de homens que se sintam livres e independentes, que não se sintam sujeitos a qualquer autoridade, princípio ou consciência – e que contudo queiram ser chefiados, cumprir exigências e ocupar o seu lugar na maquinaria social sem atritos; que possam ser comandados sem recorrer à violência, chefiados sem chefes e motivados sem objectivos, com o objectivo único de ter um bom desempenho, de estar em constante movimento, de funcionar e de progredir.
Qual é o resultado? O Homem moderno esta alienado de si mesmo, dos seus semelhantes e da natureza. Ele transformou-se num matéria-prima e vive como se a sua vida fosse um investimento para lhe dar o maior lucro possível sob as condições de mercado presentes. As relações humanas são essencialmente relações entre autómatos alienados, e a segurança de cada um depende de estar inserido na manada e de não ter pensamentos, sentimentos nem acções diferentes. Embora todos tentem aproximar-se o mais possível, todos estão sós, dominados pela profunda sensação de insegurança, ansiedade e culpa que resulta da impossibilidade de se ultrapassar a separação entre homens.(…)”
“A felicidade do Homem consiste em divertir-se. E divertir-se consiste em consumir e aproveitar matérias-primas, paisagens, comida, bebida, cigarros, pessoas, conferências, livros, filmes – tudo é consumido e engolido. O mundo é apenas um objecto, um enorme biberão, um enorme seio; nós como bebés, num estado de eterna expectativa, somos os esperançosos – e somos também eternamente desiludidos. O nosso carácter está programado para trocar e para receber, para negociar e consumir, tudo, dos objectos materiais aos espirituais, se transforma num objecto de troca e de consumo.
A situação no que diz respeito ao amor corresponde, necessariamente, a este carácter social do Homem moderno. Os autómatos não sabem amar; podem apenas trocar a sua “programação de personalidade” e esperar ter mais sorte com o produto novo.(…)”
A arte de amar. Erich Fromm, 2002
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