moçambique, 4 agosto 2009
após quase 11 horas de voo chegámos a maputo.
no avião, a moderna consola de jogos, vídeos, musicas e notícias a martelo, parecia ter vontade própria e como se de um castigo se tratasse, não funcionava, obrigando-me a concentrar a atenção no grupo de escoteiros que ía mesmo ao nosso lado. eram 21. desde o início, ainda em lisboa, que entraram nas nossas vidas. mochilas, violas, violas e mochilas, assustaram de tal modo a tripulação que por causa deles, quase não nos deixavam entrar com a nossa bagagem de mão, alegando que o aviao nao tinha compartimentos suficientes para tantas cumbas.
lá conseguimos, por intermédio de uma força maior que nos acompanha, trazer as malas de mão junto a nós. "acabaram as etiquetas de bagagem de porão!", disse a hospedeira muito desanimada. esta foi a razao da nossa sorte. deus ou nao deus, a verdade é que quando chegou a nossa vez, mesmo depois de classificadas como "malas a enviar para porão", as etiquetas lá se sumiram e as malas vieram connosco. se não, era mesmo ali, no chao de um hall onde se espera pelo autocarro, que tínhamos de as depositar e acreditar que ninguem as abriria e que chegariam intactas ao destino. maputo.
quase a meio da viagem - sobrevoávamos angola, se bem me lembro - num dos momentos de sono quase profundo (digo "quase" porque a banda sonora das cantilenas "country religiosas" em coro acompanhado de palmas estridentes - que ferem os tímpanos menos sensíveis -, nao me permitiam afundar mais), oiço dentro do meu ouvido direito (mas mesmo lá bem no fundo): "oh mesquitaaaaaaaaa". acordei assarampantada e lá estava a consola em pausa como se a vida tivesse parado para ela. ou para mim.
aterrámos. estava fresco e tinha chovido. pela segunda vez, tivémos de nos separar. são as filas para verificação de passaportes. diplomatas, estrangeiros nao residentes, estrangeiros com visto e estrangeiros sem visto, residentes assim assim e estrangeiros assim assado. Era a divisão tipicamente africana com que nos deparámos. perguntei se podia ocupar lugar na fila menos densa - reservada a "diplomatas e estrangeiros residentes" - e a resposta foi: "tem visto?", respondi: "sim tenho", retorquiu: "entao pode sim. é mesmo lá". lá fui.
o chão luzia de tão bem encerado. estava quente nesta zona. tirei o casaco e preenchi aquele papelito que nos dão à entrada e que depois de preenchido não vai vai dizer nada mais para além do que consta no passaporte e no bilhete de avião. formalidades indispensáveis para o controlo de estrangeiros. Cumpra-se!
sou a favor destes papelitos. geralmalmente causam-me aquele desconforto de não saber onde os pousar para preencher - é muito fino e nao se deixa assentar em superficies moles porque pode rasgar ao escrever - mas dá-me aquela oportunidade optima de pedir uma caneta emprestada ao viajante mais próximo, trocar umas graçolas e dar dois dedos de conversa, procurando saber de onde vem e para onde vai.
interessa-me esta imagem com que fico das pessoas. é uma especie de retrato robot sem o peso da criminalidade ou da investigação. curiosidade. cusquice. necessidade de saber dos outros e mostrar de mim. não tem mal. é genuíno e consciente.
do lado de lá já estava o pai à espera. de porte respeitável e boné colorido, acompanhava-se do primo sorridente e simpático que "aumentou muito de volume nestes ultimos 7 anos" em que a gisa esteve na europa.
chegar ao seio de uma família que não vê a filha há 7 anos é uma introsão. nao posso passar ao largo deste sentir. vim antes do tempo certo para que se reencontrem sem constrangimentos ou fantasmas europeus. lamento, arrependo-me da decisão das datas. mas agora nada posso fazer. chegámos e somos duas. e somos suas. daqui por uns dias somos três. ou duas mais uma, que vou tentar deixar a família respirar.
vou aproveitar a chegada da nádia para os deixar em paz. na paz deles. que não nos pertence e precisa de respirar. assim me parece.
nádia, ao chegar vais encontrar uma casa linda, cheia de "GOOD VIBES", muito modesta com um patio muito bonito e limpo, cheio de plantas. no jardim - adaptado de machamba -, vive há séculos a mangueira maior que já vi. dizia hoje a gisa e a amiga que uma manga daquelas chega para um almoço. em meninas comiam duas de cada vez!
na casa, o banho é de agua aquecida. faz-se com alguidar e caneca. nao me lembro como se toma banho com estes intrumentos. ainda estou meia à nora. pensei até ligar à minha mae mas sinto tanto embaraço...chegar a esta idade e nao saber tamanha acção básica...que vergonha! amanha, antes de ligar à mae, vou tentar. passei o dia a pensar nisto e acho que tenho a solução. pelo menos mentalmente. veremos a prática.
faltam pequenas coisinhas que no "nosso mundo" nem sentimos que existem. as que nao faltam, têm mais idade que a nossa avó e parecem-nos desconhecidas.
a vida aqui é diferente. e passa na mesma. e sorri-se um pouco mais. e consegue-se sentir paz e descanso e calma. muita calma. tudo acontece devagar. ao ritmo do sol.
hoje foi dia de descanso e de um pequeno passeio a pé. amanhã vamos à cidade grande no machimbombo. vamos traçar a estratégia dos proximos dias, ver mapas e assinalar objectivos. mal posso esperar. por amanha. e especialmente por depois.
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