segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Coração sem imagens

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me
ao eco dos teus passos numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

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